Métodos analíticos rápidos e de baixo custo para monitorar a qualidade dos antissépticos (álcool gel) usados no combate à COVID-19.

O uso de antissépticos baseados no álcool para higienização das mãos e superfícies tornou-se obrigatória em locais públicos, recintos comercias e residenciais em função da pandemia de COVID-19. Dentre eles destaca-se o etanol que tem sido amplamente comercializado como álcool gel. Consequentemente, a demanda por este tipo de antisséptico aumentou exponencialmente.

 

Para fazer frente ao aumento da demanda, a ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), assim como as agências de outros países, flexibilizou as normas para a produção dos antissépticos [1]. Assim, muitas novas pequenas empresas passaram a produzir os antissépticos, idealmente de acordo com três formulações fornecidas pela ANVISA [2]. Dentre as três formulações, a de álcool gel é a mais encontrada comercialmente. Infelizmente, a ocorrência de fraudes ou produção dos antissépticos fora das especificações recomendadas acompanha o aumento da de sua demanda, com oportunistas oferecendo produtos de baixíssima qualidade e ineficazes.

 

Afim de minimizar fraudes e manter os antissépticos dentro das especificações, a qualidade do álcool gel, no que se refere principalmente ao teor de etanol, deve ser verificada. O teor de etanol deve estar entre 62 – 71 % (m/m) para assegurar a eficiência na desativação do coronavírus (SARS-CoV-2). Assim, tanto para o controle de qualidade como para uma fiscalização mais efetiva é necessário se dispor de técnicas e métodos analíticos que permitam determinar o teor de etanol em antissépticos com rapidez, exatidão e baixo custo.

 

Os grupos de pesquisadores do INCTAA da UFPE, UNICAMP, UFV e Instituto de Criminalística Professor Armando Samico - Polícia Científica de PE, desenvolveram recentemente métodos analíticos para a determinação do teor de etanol nos antissépticos recomendados pela ANVISA baseados em Espectroscopia Infravermelho (IR) e Espectroscopia Infravermelho Próximo (NIR). Os métodos baseados em NIR empregam instrumentação de baixo custo e permitem a análise direta e controle da qualidade rápida (cerca de 1 minuto) dos antissépticos baseados em etanol. O custo do equipamento portátil utilizado pelo grupo de pesquisadores da UNCAMP e UFV é de aproximadamente US$ 1.000,00, permitindo seu uso em pequenas empresas e em campo, em operações de fiscalização.

 

No desenvolvimento destes trabalhos, 75 amostras de antissépticos de diferentes produtores, a maioria na forma de gel, adquiridas no comércio de Recife - PE e Viçosa - MG, ou apreendidas pela Polícia Federal em Recife, foram analisadas por meio dos métodos propostos. Em Recife, foram encontradas amostras com teores de etanol tão baixos como 20 % (m/m). Além disso, a maior parte das 75 amostras apresentou teores de etanol inferior ao recomendado pela ANVISA (70 % (m/m)), embora dentro da faixa de eficácia. Estes fatos são preocupantes, pois nestes casos a proteção desejada pelo uso dos antissépticos não será obtida ou será obtida de forma deficiente.

 

O INCTAA, financiado pela FAPESP e CNPq com colaboração da CAPES, tem como um dos seus objetivos principais desenvolver a área da Química Analítica brasileira, apresentando soluções que atendam às necessidades nacionais, com retorno para a sociedade em geral. Os trabalhos desenvolvidos e recentemente publicados são exemplos recentes da atuação do instituto [3,4], disponibilizando aos fabricantes e órgãos responsáveis pela fiscalização, métodos analíticos capazes de garantir a qualidade e eficácia dos antissépticos produzidos e utilizados em larga escala para combater a presente pandemia. O trabalho publicado pelo grupo da UNICAMP/UFV pode ser acessado pelo link: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7430279/ da coleção Public Health Emergency COVID-19 Initiative da editora Elsevier.

 

 

Referências

 

[1] Ministério da Saúde - MS Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA Resolução de diretoria colegiada - RDC N° 350 de 19 de marco de 2020. http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/5809525/RDC_350_2020_.pdf/2929b492- 81cd-4089-8ab5-7f3aabd5df61. (acessado em 18 de maio de 2020).

[2] Orientações Gerais para Produção de Formulações Antissépticas Alcoólicas. http://portal.anvisa.gov.br/documents/219201/4340788/Orienta%C3%A7%C3%B5es+para+produzir+%C3%A1lcool+gel/32afa23c-8d7b-4615-9f74-d F S

[3] F. S. Fonseca Jr., L R Brito, M F Pimentel, L B Leal, Determination of ethanol in gel hand sanitizers using mid and near infrared spectroscopy, Journal of the Brazilian Chemical Society, (2020), doi:10.21577/0103-5053.20200115.

[4] C. Pasquini, M. C. Hespanhol, K. A. M. Cruz, A. F. Pereira Monitoring the quality of ethanol-based hand sanitizers by low-cost near-infrared spectroscopy Microchemical Journal, (2020), doi:10.1016/j.microc.2020.105421

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